Professor da Ufam aponta redução das áreas verdes, desmatamento e urbanização como fatores que contribuem para o aumento das temperaturas durante o Festival de Parintins
Parintins/AM - Quem desembarca na Ilha Tupinambarana durante o 59º Festival Folclórico de Parintins logo percebe que, além da disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido, há outro protagonista inevitável: o calor, ou quentura, como diz o "caboco". Localizada à margem direita do rio Amazonas, a cidade registra temperaturas elevadas durante grande parte do ano, mas é a sensação térmica que costuma impressionar moradores e visitantes.
Em meio ao fluxo de milhares de turistas que chegam à Ilha da Magia, a combinação entre calor, umidade e características geográficas da região ajuda a explicar por que muitas pessoas relatam a sensação de estar em um ambiente abafado, como se estivessem “fervendo” sob o sol amazônico.

Turistas e moradores relatam sensação térmica elevada durante a programação do Festival Folclórico de Parintins. Foto: Daniel Brandão/A Crítica
Para compreender esse fenômeno, a reportagem de A CRÍTICA conversou com o professor doutor Edilson Albarado, do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (Icsez/Ufam Campus Parintins). Especialista no campo da educação ambiental, Albarado explicou que uma das razões para o aumento da temperatura e da sensação térmica é a diminuição das áreas verdes e o aumento do desmatamento no município.
“Desde 2006, que foi o ano que eu cheguei aqui, Parintins teve um aumento na temperatura. Nós que estudamos a educação ambiental urbana, percebemos que houve uma retirada intensa da vegetação dos quintais e cimentando-os. Temos percebido que isso influenciou no aumento da sensação térmica. As poucas áreas verdes que temos não estão organizadas”, comentou Albarado.

Segundo o professor Edilson Albarado, o reflorestamento é uma das principais alternativas para amenizar o aumento das temperaturas na ilha. Foto: Daniel Brandão/A Crítica
Como alternativa para a manutenção da temperatura na Ilha Tupinambarana em um clima mais ameno, o professor salienta a importância do zoneamento ambiental, uma estratégia que organiza o uso do território a partir de critérios ambientais, sociais e econômicos. Ele aponta áreas mais vulneráveis à degradação, regiões com potencial produtivo e locais sujeitos a restrições legais, ajudando a conciliar desenvolvimento e preservação ambiental.
“Quando há desmatamento e cimentação das áreas, a terra não respira. Quando cai a chuva, a água não consegue voltar para o seu lugar, que é para a terra. Quando chove, corre por cima do asfalto. Não há absorção, retorna para o rio. Isso faz com que a temperatura continue aumentando”, explicou o professor.
Desmatamento, aquecimento global e outros vilões
Para a reportagem, o professor explicou que as árvores desempenham papel fundamental na regulação da temperatura, especialmente em áreas urbanas e regiões de floresta. Além de fornecerem sombra, elas ajudam a resfriar o ambiente por meio da evapotranspiração, processo em que liberam vapor d’água para a atmosfera.
“As árvores funcionam como uma bomba. São elas que trazem a água do subsolo e fazem a transpiração para a atmosfera. Então quanto mais árvores tivermos, vamos dizer assim, mais haverão partículas de água indo para a atmosfera, isso com certeza a temperatura diminui. Seria como aqueles ventiladores industriais, que colocam em evento, fica ventilando e jogando ar úmido”, explicou Albarado.
Segundo ele, esse processo de evapotranspiração é necessário para a manutenção da temperatura. No entanto, o desmatamento, as queimadas, o aquecimento global e outros fenômenos, naturais ou não, contribuem para o aumento da temperatura e da sensação térmica, não apenas em Parintins, mas em todo o planeta.
“Nós moramos em uma ilha. Antes nós tínhamos um clima mais ameno e mais agradável. Com a redução dos espaços verdes na zona urbana, o avanço do desmatamento e o aumento da urbanização sem consciência ambiental, a nossa temperatura na Ilha e a sensação térmica foi aumentando”, salientou.

Para a reportagem, o professor explicou que as árvores desempenham papel fundamental na regulação da temperatura. Foto: Daniel Brandão
Alternativas para amenizar o calor
De acordo com o professor Edilson Albarado, enfrentar o aumento das temperaturas exige medidas que produzam resultados não apenas imediatos, mas também duradouros. Entre as principais alternativas apontadas por ele está o reflorestamento, considerado essencial para recuperar áreas degradadas, ampliar a cobertura vegetal e contribuir para a regulação natural do clima.
“Nós temos que plantar. Porque a gente entende que se plantar árvore, a gente planta água. E se a gente plantar água, a água vai evaporar e ela vai contribuir para diminuir a temperatura. Então um dos trabalhos que deveria fazer era incentivar as pessoas nos seus quintais plantarem árvores frutíferas, ornamentais, medicinais. Porque isso é da nossa Amazônia”, detalhou o professor Albarado.
O educador também defende o que chama de “reavivamento” da consciência ambiental, incentivando a população a adotar práticas mais sustentáveis e a compreender a importância da preservação dos recursos naturais.
“Eu não diria nem um resgate, seria um reavivamento. Porque a gente ainda tem isso dentro de nós. A gente ainda não perdeu. Mas a gente precisa incentivar. E aí a gente fez um movimento aqui que a gente chamou de Teia de Educação Ambiental e Interação em Água e Floresta, que é incentivando as pessoas a voltarem a plantar árvores”, destacou o professor.

Com o forte calor na ilha, moradores e turistas se protegem como podem, enquanto comerciantes aproveitam a oportunidade de realizar uma boa venda, seja com água, protetor solar, ou até mesmo chapéus. Foto: Daniel Brandão
Para ele, a combinação entre recuperação florestal, educação ambiental e participação da sociedade é um caminho fundamental para amenizar o calor e promover uma melhor qualidade de vida nas próximas décadas.
“As pessoas mais novas parecem que ainda não perceberam que elas precisam da árvore, que elas precisam da floresta para continuar existindo. Porque a gente vive em uma grande casa, uma casa comum, que é a Terra, com florestas. E a gente precisa aprender a se relacionar com ela. Então é isso que está faltando. A gente entende que a gente precisa conviver com as plantas. Com as árvores. Porque elas são importantes para a nossa vida”, concluiu o professor Edilson Albarado.
Com temperaturas elevadas e alta umidade, moradores e turistas enfrentam dias de forte calor em Parintins durante o Festival Folclórico (Fotos: Daniel Brandão/A Crítica)
Fonte: Daniel Brandão/A critica