A solenidade histórica destaca a luta por inclusão, acessibilidade e reconhecimento dos direitos das pessoas surdas no Amazonas
A Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) realizou um momento histórico para a defesa dos direitos das pessoas com deficiência ao promover a primeira sessão especial dedicada, exclusivamente, à comunidade surda do Amazonas. A homenagem, proposta pela deputada estadual Brena Dianá (UB), integrou as ações alusivas ao Setembro Azul e ao Dia Nacional da Pessoa Surda, celebrado em 26 de setembro, reunindo lideranças, educadores, intérpretes, representantes de instituições e membros da comunidade surda de diversas regiões do estado.
Brena Dianá destacou a importância do momento e afirmou que a solenidade representa um reconhecimento tardio, mas necessário, da luta da comunidade surda amazonense. “É uma honra para mim, como parlamentar, ser autora da primeira sessão especial da comunidade surda. Da forma como eu fiquei feliz, também fiquei triste, porque a comunidade surda já existe há muito tempo e somente agora está recebendo uma sessão especial nesta Casa. Mas acredito que este é o início de muitas coisas boas que ainda vão acontecer”, declarou.
A cerimônia teve início com a exibição de um vídeo institucional que retrata os desafios enfrentados pelas pessoas surdas na sociedade, especialmente nas áreas da comunicação, educação, saúde, mercado de trabalho e acesso à informação.
O material também destacou o trabalho desenvolvido por instituições que há décadas atuam na defesa da inclusão e da cidadania da população surda, entre elas o Instituto Filippo Smaldone, a Associação dos Surdos de Manaus (ASM) e a Nova Igreja Batista Tabernáculo.
Durante seu pronunciamento, a parlamentar fez um apelo para que a inclusão deixe de ser apenas uma palavra e passe a fazer parte da realidade das pessoas surdas. A deputada relatou demandas apresentadas por representantes da comunidade e citou situações enfrentadas diariamente por cidadãos surdos em delegacias, hospitais, unidades básicas de saúde e escolas, onde frequentemente não há intérpretes de Libras disponíveis.
Segundo ela, a falta de acessibilidade compromete direitos fundamentais e dificulta o acesso a serviços públicos essenciais. “A inclusão não pode ser somente uma palavra ou um discurso. A gente precisa ver a acessibilidade acontecendo na prática. Já ouvi relatos de mulheres surdas que sofreram violência, procuraram uma delegacia e não conseguiram ser compreendidas pela ausência de um intérprete. Também existem dificuldades nos hospitais, nas unidades de saúde e nas escolas. São problemas que precisam ser enfrentados com urgência”, afirmou.
Brena lembrou ainda que já apresentou projetos voltados à ampliação da acessibilidade na comunicação e defendeu a implantação de mecanismos permanentes de atendimento remoto por intérpretes de Libras em órgãos públicos. “Nos últimos quatro meses, tenho apresentado projetos aqui, inclusive, para a Comunidade Surda. Até porque a minha relação com a política pública não começou somente agora. Em 2020, como vereadora, eu sempre tive contato com a comunidade surda do município. Construí uma história quando eu tive a oportunidade de conhecer a comunidade. Peguei os projetos que eu tinha apresentado lá em Parintins e trouxe para a Assembleia Legislativa, porque eu sei que os problemas da comunidade surda de Parintins são os mesmos da comunIdade daqui de Manaus", ponderou.
Ao final, a deputada reafirmou o compromisso do mandato com a defesa da comunidade surda.“Vocês não precisam ser ouvidos para serem compreendidos. Existem várias formas de expressão e a Língua Brasileira de Sinais precisa ser cada vez mais valorizada e respeitada. Este mandato continuará à disposição de todos vocês”, garantiu.

Entidades reforçam a necessidade de inclusão e acessibilidade
A sessão especial também foi marcada pelos depoimentos de representantes de instituições que atuam diretamente com a comunidade surda no Amazonas. As falas destacaram os desafios enfrentados diariamente por pessoas surdas e a importância da iniciativa da deputada Brena Dianá em abrir espaço para o debate na Assembleia Legislativa.
Representando o Instituto Filippo Smaldone, a irmã Gisélia Alves Pinho ressaltou os 42 anos de atuação da instituição em Manaus e chamou atenção para as dificuldades enfrentadas pela população surda no acesso aos serviços básicos. "Infelizmente, tem surdos que morrem por doenças muito banais. Tem surdos que chegam às unidades de saúde e não são compreendidos. Tem pessoas que não sabem a doença que têm. Isso é uma preocupação muito grande porque muitas vezes ficam à mercê da boa vontade de outras pessoas", afirmou.
A religiosa destacou ainda que a realização da sessão especial contribui para dar visibilidade a uma realidade pouco percebida pela sociedade. "Essa iniciativa de hoje é de grande importância porque coloca luz sobre uma necessidade que quase ninguém vê e nem percebe. A gente costuma dizer que a surdez é uma deficiência invisível. Você não sabe que a pessoa é surda até tentar se comunicar com ela. E ela é extremamente excludente, porque é terrível você estar em um lugar e não ser compreendido", declarou.
A presidente da Associação dos Surdos de Manaus (ASM), Ângela Maria de Souza Ferreira, participou da solenidade representando a comunidade surda amazonense. A entidade foi homenageada pelo trabalho desenvolvido na defesa dos direitos das pessoas surdas e pela luta por mais acessibilidade e inclusão social.
Também integrou a mesa de honra a secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Sorayde da Silva Naveca, que representou o Governo do Amazonas durante a sessão. Sua participação reforçou o compromisso do Estado com o fortalecimento das políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência e à comunidade surda.
Representando a Nova Igreja Batista Tabernáculo, o professor mestre Fábio Tadeu Cabral Stoller destacou o trabalho de acolhimento realizado pela instituição junto à comunidade surda, promovendo acessibilidade nos espaços religiosos e ampliando as oportunidades de integração social, espiritual e educacional.
A igreja foi uma das homenageadas durante a sessão pelos relevantes serviços prestados à população surda do Amazonas. “Hoje, nossa missão consiste em organizar eventos para os surdos, sempre com acessibilidade, intérpretes e apoio ao aprendizado da Palavra de Deus. Temos grupos de estudos todos os sábados, com cerca de 25 participantes, além de atividades aos domingos. É um trabalho que busca proporcionar acolhimento, comunhão e a paz que Cristo oferece", declarou.
Fotos: Divulgação
Fonte: Shirley Assis