O fantasma de Jaguaruna e a dinheirama amazônica
A maior gestão hospitalar da Região Norte do Brasil opera em Manaus sob uma espécie de “efeito colateral” burocrático profundamente incômodo: o Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (IDEAS) ganhou a chave de um cofre de R$ 1,93 bilhão, mas esqueceu-se de fixar suas raízes cadastrais no solo que sustenta sua conta bancária.
Em termos claros: a Organização Social administra centenas de leitos públicos do SUS na capital amazonense, porém seu domicílio formal permanece confortavelmente sediado em Jaguaruna, no extremo sul de Santa Catarina, a mais de 4.000 quilômetros de distância das macas de Manaus.
Detalhe burocrático ou blecaute de transparência?
O nó da questão não reside na legalidade crua da qualificação como Organização Social — que o Governo do Amazonas prontamente concedeu —, mas na profunda miopia institucional que aceita passivamente essa distância formal.
O tamanho do rombo fiscalizatório: O Contrato de Gestão nº 002/2025 entrega o Hospital João Lúcio Pereira Machado e o Hospital da Criança da Zona Leste à entidade por longos cinco anos.
Dinheiro rápido, controle lento: Em cerca de nove meses de execução contratual, mais de R$ 217 milhões já escorreram dos cofres públicos para a conta da gestora.
Blindagem geográfica: A legislação das OSs pode não exigir sede explícita no estado contratante, contudo, a disciplina cadastral básica obriga a inscrição do estabelecimento onde o serviço ocorre. Ao ignorar essa premissa, cria-se um labirinto onde fornecedores locais, trabalhadores da saúde e auditores públicos precisam bater às portas do Sul do país para cobrar respostas cotidianas.
A conveniência do distanciamento
Não se levanta aqui a bandeira simplória da sonegação fiscal, mas a desconfortável realidade da opacidade administrativa.
Por qual razão a maior e mais cara operação hospitalar do Amazonas insiste em não possuir um endereço cadastral ativo no próprio estado onde lucra?
Grandes volumes de dinheiro público exigem rigor proporcional de fiscalização. Isolar a estrutura formal da empresa a milhares de quilômetros de distância do paciente assistido funciona, propositalmente ou não, como um poderoso amortecedor contra o controle social e a fiscalização de campo.
Afinal, quanto mais distante o dinheiro se posiciona dos mecanismos locais de controle, mais difícil se torna para a sociedade enxergar o destino real de cada centavo.
Fechamento
O debate não é sobre quem administra os hospitais, é sobre como essa administração pode ser fiscalizada.
Quando um contrato movimenta quase R$ 2 bilhões, a transparência cadastral deixa de ser um detalhe administrativo, passa a integrar a própria estrutura de proteção do interesse público.
Imagem: Divulgação
Por: Elinaete Sabóia de Oliveira