Era a década de 80 do século e do milênio passados. Estava eu em viagem de serviço como advogado de ofício para Parintins, a bordo de uma aeronave da empresa Transportes Aéreos da Bacia Amazônica, da qual a sigla, TABA, o refinado humor parintinense logo apelidou de “Transportes Aéreos Bastante Arriscados”, em razão do número de acidentes que ocorria com suas aeronaves.
Na poltrona atrás da minha sentou-se meu dileto amigo e contemporâneo da Velha Jaqueira Enéas Gonçalves, então deputado estadual, cujo pai, Gláucio Gonçalves, era o prefeito de Parintins.
Sendo visível o quase pavor de todos que estavam naquele voo, o ilustre deputado Enéas, longe de sentir-se imune ao medo, danou-se a contar histórias e causos do interior amazônico, passando pelo “boi turino de Itacoatiara”, pelas guerreiras icamiabas, conhecidas como “mulheres sem marido”, até chegar à história que ora tenho a oportunidade de aqui testemunhar.
Gilberto Mestrinho, na época governador do nosso Estado, teve a oportunidade de conhecer a festa de Garantido e Caprichoso a convite do prefeito Gláucio Gonçalves.
O Festival de Parintins começava a mostrar ao mundo sua grandeza, com a transformação do antigo tabladão no Anfiteatro Messias Augusto, carinhosamente apelidado de bumbódromo de madeira.
Pois bem.
Contou-nos Enéas que, ao presenciar a magnitude, o brilho e o encanto que Garantido e Caprichoso esbanjavam na arena do anfiteatro, sem contar o entusiasmo das galeras azul e vermelha, o governador do nosso Estado, hipnotizado pela magia da festa, solta esta pérola para o prefeito de Parintins:
– Gláucio, empata essa porra!
Imediatamente, o prefeito Gláucio Gonçalves, por todos conhecido como “Papo Firme”, com sua experiência e invejável sabedoria, responde na lata ao governador Gilberto Mestrinho:
– Eu não. Empata tu!
Ainda que todos a bordo gargalhassem das palavras de Gláucio ditas por Enéas, a lição de Papo Firme repercute, ou deveria repercutir, entre todos aqueles que têm o poder de decidir sobre o futuro de nossa arte. Caprichoso e Garantido são a arte; a classe política é à parte.
Parte essa que deve incentivar, e não influenciar nas escolhas dos talentosos artistas parintinenses.
A beleza do festival de Garantido e Caprichoso é natural e assim deve permanecer, sendo indispensável o incentivo político de seus representantes, mas não sua interferência.
Gláucio, com seu papo firme e reto, mostrou ao governador do Estado, e a todos, que boi e política não se misturam, assim como não se misturam as águas do Rio Uaicurapá e do Paraná do Ramos.
Passam os políticos. Ficam os bois, com suas culturas e tradições já eternizadas.
*O autor é advogado e compositor.
Foto: Divulgação
Por: Parintins Play