A legalização das compras via contratos assinados entre frigoríficos de médio e de grande porte instalados no interior do Amazonas e associações/cooperativas de pescadores locais está transformando a realidade dos ribeirinhos. A incerteza deu lugar a acordos definidos com valores e datas de pagamento acordados com antecedência.
Os contratos permanentes e a segurança do pagamento em dia contribuem diretamente para a evolução socioeconômica de mais de 10 mil profissionais da pesca.
Os peixes adquiridos de pescadores dos municípios de Manacapuru, Beruri, Anamã, Fonte Boa, Maraã e Parintins, entre outros, estão abastecendo mercados em grande parte do Brasil e em outros países como: Peru, Colômbia e, até o rigoroso Estados Unidos. Anualmente, são exportadas milhares de toneladas de peixes retirados dos rios da Amazônia seguindo as normas determinadas pelos órgãos de proteção ambiental.
Profissionalização dos pescadores
De acordo com o pescador Leandro Seixas, 42, coordenador de Pesca do Lago Cuianã, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus, em Beruri, a Frigopesca, um dos grandes frigoríficos do Norte do país que está instalado na cidade de Manacapuru (distante 98 quilômetros de Manaus via estrada), contribuiu para a profissionalização da atividade dos ribeirinhos.
“Eu estou desde o começo do manejo, desde quando nós ganhávamos R$ 100 cada pescador. Nós não tínhamos material, a empresa forneceu material para a gente. Passamos a vender o peixe para a Frigopesca, que mandou o barco pegar os peixes aqui sem cobrar nada. Naquela época, recebemos R$ 11 mil. Repartimos e deu R$ 100 para cada manejador. Todo mundo ficou feliz”, relembrou.
Ao longo dos anos, tanto o valor foi corrigido quanto aumentou o montante de peixes vendidos. “Hoje, graças a Deus, a gente ganha quase R$ 1 milhão. Todo ano a empresa compra o nosso peixe. Os compradores vêm e levam para o frigorífico, que paga a gente certinho, no final da safra. A gente agradece muito porque ela nos ajudou a construir a reserva e a proteger nossa família e a natureza, que é nossa segunda família”, declarou Leandro.
Na última safra, os pescadores receberam conforme a produtividade de cada um. Os valores oscilaram entre R$ 5 mil e R$ 20 mil. Um salto na remuneração quando comparado ao primeiro pagamento.
Melhoria na qualidade de vida
O coordenador de Pesca do Lago Cuianã relata que muitos ribeirinhos passaram a ter uma vida melhor a partir da entrada dos frigoríficos na comunidade. “Muita gente, há 14 anos, tinha a casa de palha. A nossa casa só faltava cair. Com esse dinheirinho hoje, todo mundo tem a sua casinha toda boa. A gente compra nossas coisas pra dentro da casa e pra família da gente”, comemorou.
Raimundo Vidinha, 56 anos, pescador desde os 11 anos de idade, relembra a evolução da qualidade de vida a partir do fechamento de negócios com empresas de médio e de grande porte. Alguns frigoríficos assumiram atividades dos pescadores, acabando com a sobrecarga de trabalho.
“De primeira, a gente não tinha essa tranquilidade. Agora tem mais um conforto, porque antes, a gente saía e passava semanas e semanas pescando. Aí chegava em casa, a gente ainda ia cuidar do que a gente trazia, que se fosse para peixe da salga, tinha que secar o peixe, tratar. Esse trabalho agora não temos mais. A gente pega o peixe e leva direto para o barco da empresa. Depois é só esperar para pegar a grana e gastar. Ninguém tem mais todo o trabalho que a gente tinha, né? Melhorou o preço. Quando eles vêm comprar o peixe do manejo, é com o preço melhor”, comentou Raimundo Vidinha.
Fim de prejuízos e mais confiança
Para Amarilson Bastos, 39, que atua de agosto a novembro junto a mais 93 pescadores no Lago do Cuianã, em Beruri, a participação das empresas na compra das toneladas de pirarucu e tambaqui, anualmente, encerrou um ciclo de prejuízos causados por pessoas mal-intencionadas. Segundo eles, compradores clandestinos adquiriam o peixe, mas não pagavam ao final da safra.
“A gente sabe que é uma coisa (atividade) tudo dentro das leis, levando o produto da gente para um lugar que a gente vai ter retorno. Antes, a gente não confiava nesses compradores porque enganavam a gente. Hoje em dia as coisas são mais certas. Os compradores vêm aqui, né, assinam um contrato, se comprometendo a cumprir tudo aquilo que está escrito no contrato. Então, é uma segurança que traz pra gente”, pontuou Amarilson Bastos.
Segundo o empresário Raimundo Chikó, proprietário da Frigopesca, o fluxo financeiro gerado pela pesca de manejo e pela industrialização contribuiu para a evolução da qualidade de vida.
“Hoje, quase todo comunitário tem seu motorzinho rabeta, tem seu material de pesca, tem a sua casinha. Alguns já têm seu motorzinho para gerar energia para a sua casa quando é desligado o gerador da comunidade”, ressaltou Chikó.
As casas destes moradores do meio da floresta estão aparelhadas com freezers, geladeiras, televisores de última geração, fogão, pequenos eletrodomésticos, motocicletas e até barcos de propriedade coletiva de colônias como a de Maraã.
Além da Frigopesca, também realizam negócios na região as empresas Bio Pescados da Amazônia, que tem sede no município de Iranduba e a Friolins, situada em Manacapuru. Autorizados pelos órgãos de controle e com certificações (SIF, FDA), os frigoríficos estão garantindo fonte de renda certa para muitas comunidades ribeirinhas, contribuindo para colocar estas áreas na rota do desenvolvimento do setor primário.
Manejo que transforma
O empresário Raimundo Lima de Souza, proprietário da Friolins, também sediada em Manacapuru, relata que o manejo do pirarucu tem transformado a realidade socioeconômica de comunidades ribeirinhas em municípios como Beruri, Anamã, Anori, Tefé, Coari e Fonte Boa. O gestor ressalta que a parceria empresarial tem sido proveitosa para ambos os lados.
“E com isso, claro, o retorno é visível nas comunidades. Hoje, eles estão tendo uma condição de vida melhor. Antigamente, viviam só de extrativismo. Então o pirarucu conseguiu alavancar as comunidades. Com o ribeirinho produzindo mais, logicamente vai ter um retorno muito maior de benefício. Quando você extrai uma coisa da comunidade e deixa retorno, claro que a comunidade em si sente o impacto. A gente fica muito satisfeito com o trabalho do Friolins, trabalho do Raimundo da Frigopesca, do Matusalém da Bio Pescado, do Sérgio lá embaixo, do Samuel lá em Parintins”, explicou o empresário, ressaltando que fatura anualmente em torno de R$ 25 milhões com a compra e venda de peixes do Amazonas.
De acordo com o empresário, apenas em 2025 foram adquiridas 220 toneladas de pirarucu oriundas de Beruri, volume que beneficia diretamente e indiretamente cerca de 300 pescadores organizados na região em comunidades que reúnem, em média, de 50 a 60 pessoas envolvidas no manejo. Além do pirarucu, a empresa também compra os chamados “peixes lisos”, como dourado, filhote, jaú e pirarara, ampliando a cadeia produtiva do pescado na região.
Pele em alta
Outro fator que vem impulsionando o setor é o aproveitamento integral do pirarucu, especialmente da pele, que hoje atinge valores em torno de R$ 160 a 180 por unidade, que costumam pesar entre 8 e 10 quilos. As peles são usadas na fabricação de biojoias, sapatos, bolsas e outros artigos de alto valor agregado.
Raimundo cita parcerias com empresas de curtimento em São Paulo e com compradores no Rio de Janeiro que adquirirem de 40 a 50 mil peles por ano e exportam o material para mercados como Estados Unidos, México e Europa, criando uma cadeia que vai muito além da carne do peixe.
Raimundo Silva, atualmente, exporta peixe para Brasília (DF), Goiânia (GO), São Paulo, Minas Gerais, e já exportou para os Estados Unidos, Singapura e Malásia.
Fotos: Divulgação
Fonte: Shirley Assis