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Eles resistem ao PIX
Pescadores do interior do Amazonas preferem receber em dinheiro de papel por dificuldade de internet e agências bancárias sem estrutura
Publicado em 07/01/2026 19:21
Economia

Dados do Banco Central apontam que aproximadamente 170 milhões de pessoas físicas utilizaram o PIX como forma de pagamento instantâneo em 2025. Embora a transação bancária seja maioria no país, pescadores amazonenses resistem à tecnologia. Em razão das dificuldades de acesso à internet e falta de agências bancárias no meio da Amazônia, os trabalhadores preferem o pagamento de forma milenar: em espécie ou popularmente conhecido como “dinheiro vivo”.

 

Ao final da safra, os compradores, donos de frigoríficos que vendem pescado em larga escala, arriscam-se sacando grandes quantias em dinheiro, algumas vezes o valor chega a perto de R$ 2 milhões. Os valores são transportados via barco até às comunidades para liquidar a operação comercial.

 

Os empresários cercam-se de seguranças para fazer o rico transporte, mas os riscos são grandes. Os piratas dos rios, assaltantes que agem com violência, ficam à espreita das movimentações para agir. Os empresários tentaram eliminar o risco por meio de transações bancárias, mas a falta de estrutura das agências bancárias no interior, que não operam com grandes quantias e a incapacidade dos pescadores de dominar a tecnologia do PIX impedem a migração do sistema de pagamento tradicional para o eletrônico.

 

Só dinheiro vivo

O pescador Marcelo Costa, que sobrevive da pesca anual na zona rural de Beruri (a 173 quilômetros de Manaus), afirma que os colegas de profissão preferem receber em espécie, em razão da dificuldade de acesso a banco na região e manuseio com smartphones.

 

Cerca de 94 pescadores na comunidade de Cuianã pescaram 124 toneladas de pirarucu, o que gerará um retorno financeiro de aproximadamente R$ 868 mil. “A gente sempre trabalhou com dinheiro em espécie. Aqui, tem um ‘expresso (posto bancário em Beruri)’, mas o limite do ‘expresso’ é baixo. Ele não tem um dinheiro alto desse que a gente movimenta no manejo, ele não resolve essas coisas. A maioria aqui tem um grau de escolaridade baixo, alguns são analfabetos. Muitos não sabem mexer com celular, com PIX, essas coisas. Então, a preferência para a gente aqui, é mais o dinheiro.  O dinheiro em espécie ele é trazido pelo comprador até nossa comunidade, não é uma responsabilidade nossa de pegar até o ponto de venda”, explicou o trabalhador ribeirinho.

 

O ex-pescador Sebastião Amorim, 71 anos, da comunidade Itapuru, em Beruri, tem um pequeno comércio na localidade. Ele prefere receber em dinheiro pelos artigos que vende na taberna. A cada 100 vendas, mais de 60% são pagas em “dinheiro vivo”.

 

“Eu fico muito nervoso para trabalhar com PIX porque não tenho prática de usar. É ruim para gente quando a gente não tem prática de trabalhar, é difícil para gente, né? A minha dificuldade é o quê? É que a minha escolaridade é pouca. Não tenho muita prática de lidar com a internet no celular, aí fica difícil. Por isso, peço que as pessoas paguem com dinheiro em espécie”, diz o comerciante, ressaltando que uma vez por mês tem de navegar por mais de dez horas de viagem para sacar dinheiro em uma agência bancária de Manacapuru.

 

Outro que prefere receber em espécie é o pescador Manoel Francisco Pacheco Filho, também da comunidade Cuianã. Ele tem 53 anos e mais de 30 anos dedicados a pesca. Analfabeto, não tem celular e desconfia das novas tecnologias. “Muitos de nós não sabe ler nem escrever. O dinheiro na mão é seguro, é a certeza de que está tudo certo, tudo firmado. Aqui no nosso município não tem dinheiro e não dá para ir buscar o dinheiro lá em Manacapuru, é muito longe. Seriam mais de seis horas de viagem num barco pequeno. Por isso, é melhor quando o comprador traz o dinheiro aqui”, disse Manoel.

 

Mudança

Para evitar os riscos de roubo, sequestros e assassinatos, as comunidades estudam abrir contas bancárias para todos os pescadores e ensiná-los a manusear celulares para movimentar o dinheiro recebido com a venda do peixe. Além de ser um longo processo de conscientização, a mudança esbarra na falta de energia por períodos prolongados nas comunidades e de queda constante no sinal da internet, o que dificulta as transações comerciais.

 

Fotos: Divulgação

Fonte: Shirley Assis

 

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